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O fundo do poço tem mola

Crônica - O Fundo do poço tem uma moça

Quando o conheci eu tinha 34 anos. Uma mulher irreverente, e aquele homem atrevido, estranhamente lindo. Vivemos uma daquelas paixões beirando a insensatez e que se instalou com uma intensa conexão. Viajamos alucinados de todas as maneiras. Para mim, foi como se não houvesse tempo. Sentia meu corpo ardente, minha mente carente de pensamentos que me reportassem a ele quando estava junto e mesmo que não.

Ele me dava o que eu precisava, sua paixão, sua razão. Dizia que me amava. Promessas fazia de que aquilo seria eterno.

Foi assim por um tempo, mas no caminho eu comecei a ter outros quereres. Pensava na construção do nosso amor. Depois do incêndio da paixão, queria cuidar daquele amor que estava nascendo.

Durante um período acabei me afastando da família, dos amigos. Mas começava a ter novamente necessidade do encontro com os outros. Enquanto recebia uma proposta para mudar de cargo no trabalho e passar a me dedicar mais.

Havia outro lado nele muito marcante de arrogância, prepotência e falta de humildade.
Percebi que ele não mostrava interesse nos meus amigos, nem mesmo no planejamento de meu novo trabalho o que me deixou frustrada, confusa porque não combinava com sentimento de amor nenhum, no meu ponto de vista.

A partir desse momento começaram as brigas. E além do desinteresse dele pela minha vida e tudo que a envolvia ele começou a me depreciar, me colocar muito fora do meu lugar. Para mim as confusões e questões eram infindáveis e estavam me consumindo dia a dia.

Meu maior sonho era formar uma família com aquele homem, e viver o possível da tranquilidade.

Com o passar do tempo comecei a sentir um peso naquela relação. Mas sem entender que ele apresentava um transtorno, continuava naquela relação e meu instinto feminino parecia dizer que observasse o que se passava. Às vezes sentia que me relacionava com um vazio. Me encontrava nua naquele mar de loucura.

Passei algum tempo procurando entender o que acontecia com ele. Porque ele me culpava de tudo que não ia bem, por quê me feria tantas vezes? Para que tantas brigas? se o que eu queria me parecia saudável e honesto. Não, eu não era, não, eu não sou louca. E nem tão pouco tinha culpa se nossa relação não tivesse ido em frente. Mas tive que ouvir isso e tantas outras coisas que mais pareciam um plano armado contra minha pessoa, que me tiravam do centro.

Até que resolvi buscar ajuda psicológica para entender o que acontecia. Eu queria o caminho de volta para mim.

Hoje sei que permaneci durante muito tempo no escuro, mas às vezes gritava aqui dentro… trata-se de um homem com transtorno narcisista com pensamento desenfreado e obsessões sexuais.

Não podia continuar fazendo tanto mal a mim mesma. Tinha que romper com aquele nó. Eu tentei, ele saiu da relação. Comecei a melhorar. Ele voltou e jurou se tratar. Eu voltei. Sai. Eu voltei. Sai. Eu voltei…

Até chegar ao fundo do poço. Sim, fui parar enlouquecida, numa clínica e lá pude entender que a volta para mim não seria fácil. Perdi quase tudo. Até recuperar o amor por mim. Ainda há resquícios de pavor dele que volta e meia me procura, com quem tive que romper todos os contatos, todos os laços e emaranhados sem exceção. Tive que ter clareza para sair com a porta aberta para outros amores, sem medo.

Por Carla Natalie Bighetti Buckup
Psicóloga Clínica.

3 respostas

  1. Nossa que fantástico. A narrativa de muitas mulheres.
    Com certeza essa crónica ajudará a termos forças e seguir em frente depois de tombar num mar de insanidade, desilusões e sensação de fracasso.
    Sim, é aceitando a verdade que descobrimos as mentiras.
    Obrigada Carla.

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